9.3.12

Identidade: mãe. O retorno da mística feminina?

Por: Joanna Búrigo



Recentemente tive o prazer de receber uma amiga sensacional, com quem, devido à distancia e às vidas corridas que nós duas levamos, infelizmente passo menos tempo do que gostaria. Foi deliciosamente intenso, e a semana em que estivemos juntas não foi suficiente para colocarmos em dia todas as conversas que gostaríamos. Mas de um assunto foi impossível não falar, e muito: do quão absolutamente gostosíssima sua filhota é. Não surpreendentemente, cada história que minha amiga contava sobre a pimpolha gerava suspiros e gritinhos de deleite. Esta foi apenas a segunda viagem que ela fez sem a filha, e ficou bem claro que, apesar de estar se divertindo (e trabalhando) bastante, minha amiga estava com o peito apertado de saudades. “Ser mãe é muito bom, Jo”, ela me disse em vários momentos. A felicidade que a maternidade proporciona a esta minha amiga é evidente, e ouvi-la falar sobre sua menina nestes termos encheu o meu coração de alegria. O que é, por sinal, exatamente o que acontece quando leio este blog.  

Eu não sou mãe – ao menos não ainda – então minha experiência com o tema é de ordem puramente observacional. “Ser mãe é muito bom” é algo que escuto com bastante frequência, e genuinamente acredito que isso seja verdade. Além de ter muita vontade de experienciar as sensações de gerar, dar à luz, e amamentar um bebê, penso que os aspectos sociais da maternidade – como ser parte ativa da educação de uma criança, observando-a crescer e servindo de guia para seu desenvolvimento pessoal – sejam o que existe de mais fascinante na nossa condição humana. Criança é uma delicia! Contudo, biologia não é pre-rquisito para a execução destas funções (uma mãe adotiva as exercita sem que suas credenciais de mãe sejam questionadas), e elas tampouco são condicionais à maternidade – afinal de contas, toda cria tem um pai. Não obstante, é indiscutivel que essas funções sociais ainda são realizadas, majoritariamente, por mulheres – não somente quando observamos o número absoluto de pessoas primariamente responsáveis pela criação dos pequenos e pequenas, mas também quando comparamos a proporção de tempo que seres humanos dos sexos feminino e masculino dedicam a essas tarefas.  

Uma das causas – e consequências – dessa  diferença é a ênfase social conferida à ideia de maternidade. Claro, existem múltiplas percepções a respeito do que significa ser mãe, mas o contraste com o análogo mais próximo – ser pai – melhor possibilita a exposição que quero fazer.

Existem muito mais espaços sociais e manifestações discursivas a respeito do que é ser mãe do que a respeito do que é ser pai. Um excelente meta-exemplo, a propósito, é este blog; uma das inúmeras evidências da crescente comunidade de mães blogueiras, tuiteiras, tumblr-eiras… internautas em geral (se é que ainda se utiliza essa expressão). Essas comunidades online são excelentes plataformas para que mães tenham a enorme satisfação de encontrar pessoas cujas experiências são semelhantes às suas, o que é essencial para o desenvolvimento de um senso de comunidade, e até de identidade coletiva. Mas pergunto: existe uma cena equivalente a esta, para os pais? Acredito – e espero – que sim, mas certamente  em quantidade significantemente menor.

As percepções a respeito do que significa ser mãe ou ser pai estão evidentemente ligadas a existência ou não de filhos – mas existe um outro fator que informa essas percepções – da série “o óbvio ululante”: ser mulher ou ser homem.

Generalizando deliberadamente – com o objetivo de estabelecer os parâmetros deste debate, que são da ordem das estruturas sociais e não apenas de como certos eventos sao vivenciados por indivíduos em particular – me parece que quando um homem tem um(a) filho(a) ele permanence sendo quem ele sempre foi – só que agora ele também é um pai. No entanto, assim que uma mulher tem um(a) filho(a) ela se torna, acima e antes de tudo, uma mãe – mesmo aquelas que trabalham duro para construir coisas como uma carreira. Eu tenho a impressão de que maternidade parece ser algo como um “papel principal” para muitas mulheres. Ainda que eleger uma identidade primordial para si, e orgulhar-se dela, não seja necessariamente problemático, não estou totalmente convencida de que o contexto no qual a escolha pela “identidade: mãe” seja, autenticamente, um de plena liberdade.

Escolha. Eis uma palavra a respeito da qual sempre fui um tanto cética. Explico. Uma escolha somente pode ser feita a partir de uma série de opções. Embora esse nosso mundo pós-moderno e neoliberal adore salientar a ideia de liberdade de escolha como algo que ocorre dentro de um universo infinito de possibilidades, na maioria das vezes as opções disponíveis são francamente limitadas. O que quero dizer é que a escolha entre assumir mãe como identidade pode não ser tão livre quanto gostamos de acreditar. Para melhor ilustrar o ponto, recorro novamente ao âmbito do mercado de trabalho: parafraseando Gloria Steinem, eu ainda estou para ouvir um homem pedir conselho a respeito de como conciliar carreira e família...

Ser mulher significa muitas coisas. (Ser uma pessoa significa muitas coisas.) Todavia existem certas construções sociais que são criadas de forma a classificar as pessoas em grupos. Quer dizer, é claro que o processo de identificação com pessoas semelhantes tem muita importância, mas é essencial que estejamos cientes de que muitas vezes essa “identidade coletiva” não é necessariamente o produto orgânico de socialização com pessoas que compartilham de certas experiências, mas sim um fruto de sistemas sociais que condicionam indivíduos a se adequarem a padrões de comportamento que deles sãoesperados.

Há quase 50 anos, Betty Friedan lançou um dos livros mais socio-culturalmente relevantes do século XX, “A Mistica Feminina . Este livro é o resultado de uma série de entrevistas conduzidas por Friedan não apenas com mulheres, mas também com profissionais de diversas áreas em suas encarnações direcionadas a “assuntos de mulher” – por exemplo, ginecologistas, professores de escolas e universidades onde havia segregação de gênero, publicitários cujos clientes eram fabricantes de produtos considerados femininos (eletrodomésticos, batom, fralda!) dentre outros. Em sua pesquisa, fundamentada por um extenso corpo de evidência, a autora sugere que a ideia de “mulher” foi mistificada depois da Segunda Guerra Mundial através da glorificação dos papeis de mãe e dona de casa. Friedan argumenta que essa exaltação escondia, na verdade, uma agenda machista e capitalista, que oprimia as mulheres. De acordo com a autora, enaltecer as qualidades atribuídas a mães e donas de casa como semi-divinas, simbolicamente colocava as mulheres num pedestal de perfeição. Basta ver os “reclames” da era – hoje irrefutavelmente considerados machistas – ou assistir um episódio da cultuada série Mad Men para enxergar o que Friedan estava dizendo. O problema dessa mistificação, evidentemente, foi a limitação daquilo que veio a ser aceito como comportamento feminino adequado, e de quais identidades eram condizentes a condição da mulher. Uma identidade que é articulada de fora para dentro, e subsequentemente institucionalizada e oferecida a um sujeito (ou grupo) como o padrão a ser seguido, é necessariamente opressiva a liberdade deste sujeito (grupo) de construir a sua própria identidade, organicamente. As vantagens desta mistificação – não do ponto de vista de quem estava sendo mistificada, indiscutivelmente – foi a exclusão sistemática de mulheres da esfera pública (e política), o que garantia a manutenção de diversos benefícios masculinos, como por exemplo o de não -participação em assuntos da seara doméstica (o que, por sua vez, conferia a eles maior liberdade e mobilidade para tratarem de suas carreiras...).

O momento histórico pelo qual estamos passando, com a proliferação de possibilidades de socialização oriundas desta maravilhosa faca de dois gumes que é A Internet, é único e merecedor de atenção por diversos motivos. Ao mesmo tempo que esta janelinha aberta para o mundo auxiliou na construção de processos revolucionários como a Primavera Arabe, ou permite que mães se comuniquem com mais facilidade formando coalizões importantes e amizades que ocorrem na tangente da distância geográfica, a constante exposição que fazemos de nós mesmos na www vem implodindo alguns pilares básicos da ideia de privacidade. Abrimos as portas para um estado de vigilância constante, e um dos perigos de observação incessante é que, quase inevitavelmente – e certamente inconscientemente – acabamos por nos render ao impacto do olhar do outro sobre nós. A internalização de verdades alheias pode vir a reiterar, por dentro da gente, que certos padrões de comportamento historicamente aceitos pelo status quo são ideais e que devemos persegui-los, sordidamente nos estimulando a fazer vista grossa a alguns de nossos desejos mais profundos para nos adequarmos a papeis publicamente legitimados como válidos e satisfatórios. Para não me distanciar do exemplo já usado, quem pode afirmar que não exista um número imenso de mulheres contemporâneas cuja maior vontade é, de fato, atingir excelência em suas carreiras mas, ao analisarem seus contextos e encontrarem-se sem resposta aceitável para a pergunta “e as criancas, deixo com quem?”, conformam-se com a “identidade: mãe”, revitalizando a mística feminina de outrora?  Eu não estou querendo implicar que esta seja a aflição de todas as pessoas – mas, cá entre nos: se é a de algumas, vale a pena termos esse debate, não?

Retornando a minha amiga, que foi quem me fez pensar em tudo isso, deixe-me dizer que ela leva uma vida extremamente agitada e repleta de compromissos e responsabilidades, e ela parece mesmo ter alcancado um equilíbrio exemplar a respeito da sua própria identidade. Agora, verdade seja dita, o “namorido” dela é parte integral dessa equação – ele não ajuda, mas sim divide igualmente com ela as responsabilidades pela filha e pela casa. Ela é uma pessoa integral, um indivíduo cuja existência é multi-facetada, e, por isso, não se contenta em dispor de apenas uma definição de si mesma. Ela é mãe sim, e uma mãe zona, por sinal. Mas ela é mãe também.

***

Oiê. Meu nome é Joanna e eu sou prima da Gabi. Nós duas não temos nem um mês de diferença de idade,  nossas personalidades são relativamente diferentes, e a nossa diferença de estatura é maior do que a Serra do Rio do Rastro – mas o amor enorme que temos uma pela outra é indiferente a tudo isso e segue inabalado e inabalável nesses nossos quase trinta e três anos de vida.

Essa é  a segunda vez que faco uma contribuição para o Minhas3Meninas. Na primeira, apenas compartilhei uma canção que achei deveras bonitinha, interessante, e rara na sua composição: a letra conta a história da Princesa que salvou a si mesma, e se divertiu um bocado no processo. Vem aqui para ler mais. Depois de ter publicado a melô da Princesa guitarrista, a Gabi me convidou para ser “guest blogger”, escrevendo, claro, sobre temas relacionados aos que ela publica aqui, mas que fossem informados pela minha paixão por teorias feministas, de g ênero, de mídia e de crítica cultural. Eu topei, mas não venho encontrando muito tempo para contribuir com frequência, então combinamos que posts seriam enviados a medida que eles vão surgindo. E nove meses depois da primeira contribuição, aqui vai a segunda. Sera que é  dessa vez que nasce a parceria?

O conteúdo desse post reflete as minhas percepções, mas não necessariamente as da Gabi. A ela, agradeco a generosidade de oferecer este espaço como veículo para iniciar essa conversa – a beesha me conhece e sabe que gosto mesmo é de debate. Prima, linda, magra, tu és o maximo. Já te disse isso muitas vezes, mas repito: poucas pessoas sao tão genuínas como tu, e eu te amo loucamente.  


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Amei prima linda magra! Amei!!!! Sabes o quanto eu gosto dos teus textos, pode vir sempre aqui! Um beijo! Te adoro demais e tenho uma grande admiração da tua sabedoria! 

2 comentários:

Quando virem a visita de Moçambique sou eu!
Jô, adorei o tema, não sou tão conhecedora mas me inspirou bastante para fuçar mais!
Beijo nas duas! Lena
PARABÉNS PARA AS DUAS!! JÔ, TEXTO MUITO BEM ESCRITO, TENS UM TALENTO ESPECIAL PARA A ESCRITA, ENTRE OUTRO TANTOS TALENTOS. ACHEI O TEXTO INTELIGENTE E DIVERTIDO, MAS DISCORDO DE ALGUNS PONTOS, ACHO QUE HOJE O COMPORTAMENTO PADRÃO QUE NOS COBRAM E QUE É CONSIDERADO " PUBLICAMENTE LEGITIMADO COMO VÁLIDO E SATISFATÓRIO" É QUE DEVEMOS TER UMA CARREIRA E NÃO QUE DEVEMO SER MÃE, O QUE NOS COBRAM HOJE É QUE TEMOS QUE TER UMA VIDA PROFISSIONAL ACIMA DE TUDO, INCLUSIVE PASSANDO EM CIMA DE TUDO, MESMO QUE ESSE TUDO SEJAM NOSSOS FILHOS, ACHO QUE DEVEMOS TENTAR ACHAR UM MEIO DE EQUILIBRAR AS DUAS COISAS, E SE ISSO NÃO FOR POSSÍVEL ESCOLHAM SEUS FILHOS, POR FAVOR!! E NÃO PENSEM QUE COLOCAR NOSSOS FILHOS EM PRIMEIRO LUGAR SEJA UM TIPO DE CONFORMISMO. OLHA A CHATA QUERENDO DEBATER!! O TEXTO ESTÁ ÓTIMO, MAS NÃO CONSEGUI SEGURAR MINHA OPINIÃOZINHA!!
BEIJÃO AMIGAS DO PEITO!! BINA

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